Vivemos dentro da rocha. Ou melhor, vivemos a rocha nossa de cada dia. Assim, como rocha que é, ela não muda ou muda muito pouco no decorrer de milhares de anos. E esta é sua característica fundamental: a quase imutabilidade ou até mesmo a imutabilidade total.
Contudo, há dois instrumentos para triturar a rocha: o bico do pato e o pato que usa o seu próprio bico como pequena britadeira de protesto e de guerra de guerrilhas. De fato, bicando aqui e ali, o pato – que é impertinente, amável, mas também caturra e aborrecido – acaba por causar algum dano à rocha. Sim, este é o lema: um pequeno dano à rocha é o grande serviço de um pato bicador. Sabe-se que o bico do pato não é suficientemente duro para quebrar a rocha inteira. Mas também se sabe que é possível se divertir com ela, dar-lhe bicadas sacanas e certeiras; caçoar da rocha e de seu mutismo burro de coisa petrificada.
O pato é assim mesmo, periódico anárquico-gozativo. Não existe o fato nem o ato; – apenas o pato é real. O mundo já acabou (e poucos sabem disso); além do mais, todas as profecias foram cumpridas. Rasguem-se leis novas e velhas. Cuspa-se com humor em costumes antigos e naqueles que tem a duração de um dia (adeus imediatismos). Venham para a mutabilidade do picadeiro em que um pato está cantando e dando bicadas à direita, à esquerda e ao centro! Eis a metralhadora giratória de um bico zombeteiro!
Agora o pato está bicando para dizer que na rocha existem duas regras imutáveis e complementares: a aparência é a verdade de todo canalha farfalhudo; e a verdade é que, aparentemente, tudo parece ser uma incrível canalhice. Tudo se compra em farmácia, basta saber disto para viver (e sobreviver) na rocha. Existe algum lugar em que se pensa desta forma? Ou, em outros termos: saia daí e venha para cá bicar conosco a estupidez hodierna!
É assim que se conjuga este verbo: se eu bico e tu bicas, ele um dia bicará.
Se nós todos bicarmos, vós algum dia haveis de bicar.
E eles, – rocha!
Francisco Vianna de Souza


1 Resposta para “O Pato e a Rocha (Editorial de um pato supimpa)”


  1. junho 20, 2008 às 11:40 am

    PATATIPATACOLÁ.

    QUÁ QUÁ


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